Por meses tenho esperado pela 15ª aniversário do altar da Santa Muerte, de Enriqueta Romero, no conhecido bairro de Tepito, situado na Cidade do México. A Dona Queta, como é conhecida carinhosamente, lançou, sem premeditar, o movimento religioso que mais cresce nas Américas. E tudo isso simplesmente ao colocar sua estátua de esqueleto – de tamanho real – na calçada de frente da sua casa, no dia de Halloween de 2001.

Antes do culto vir à tona, a Santa Muerte era venerada de forma clandestina, para evitar repreensão e uma possível perseguição por parte dos Católicos e Protestantes. A Santa folclórica mexicana era tão desconhecida, que nem mesmo os meus sogros de 86 anos conheciam. Eles moram a vida toda no estado de Michoacán, mas só souberam sobre o assunto através da minha pesquisa.
Eu conheci a Dona Queta pela primeira vez, no verão de 2009, quando eu apenas tinha iniciado a minha pesquisa sobre a figura da Santa Muerte. Tendo feito a maior parte da pesquisa anterior no Brasil, eu não tinha como saber como seria recebido como um pesquisador americano no bairro mais infame da Cidade do México, conhecido pelos conflitos de gangue e de contrabando.

No entanto, a minha preocupação foi embora quando a Dona Queta me recebeu com tanta generosidade no seu altar e na sua casa, me oferecendo total acesso aos devotos que se aproximavam todo tempo durante o dia. Eu acabei fazendo a maior parte da minha pesquisa no seu histórico altar, especialmente através das entrevistas com os Santa Muertistas.

Chegar aos 72 anos no bairro de Tepito é um grande feito, ainda mais se o câncer ataca. A madrinha da Santa Muerte recentemente venceu o câncer de garganta, e ela acredita ter sido graças aos poderes de cura tanto da Virgem de Guadalupe como da Santa Muerte.

Apesar disso, foi a própria morte que veio ao encontro de seu amado marido de muitos anos, o Rey, fato que a levou a cancelar a celebração de aniversário de 15 anos que aconteceria no dia 31 de outubro de 2016. Em junho deste ano, o Rey e o irmão de Dona Queta foram vítimas de um atentado e assassinados, em plena luz do dia, por sicários que andavam em uma motocicleta. Ambos foram atingidos pelas balas dos assassinos, sendo que Rey sucumbiu às feridas, mas o cunhado de Enriqueta sobreviveu. Escrevi sobre o trágico incidente aqui.
Apesar da celebração não ocorrer, uma grande quantidade de devotos chegou para prestar tributo e respeito à pioneira da Santa Muerte, no dia de Halloween e no dia primeiro de
novembro. Meus colaboradores no filme “La Flaca” (veja o trailer aqui) – um longa-metragem sobre o culto à Santa Muerte, em Nova York -, os co-diretores Thiago Zanato e Adriana Barbosa, estiveram em Tepito, no último Halloween, ao lado do fotógrafo Marco Antonio Ferreira e o guia local e antropólogo Mario Puga. Thiago descreve o que viu…

Chegamos em Tepito um dia antes de que a Enriqueta Romero fizesse o esperado rosário mensal, no dia de Finados, ou como conhecido no México: El Día de Muertos. Ouvimos que se esperava a chegada de muitas pessoas ao altar nesse dia. Era a nossa primeira vez em Tepito e não tínhamos ideia se a Enriqueta iria falar com a gente.

Tepito é conhecido por ser um dos bairros mais barra pesada na Cidade do México, então achamos que seria necessário ir com um guia, e encontramos o Mario. Fomos informados diversas vezes de que a Enriqueta não estaria na sua casa por conta do trágico assassinato do seu marido alguns meses antes, mas decidimos ir de qualquer jeito.


Depois de andar pelas ruas de Tepito – seguindo o roteiro cultural de Mario -, chegamos à casa da Enriqueta e, para nossa surpresa, ela estava bem na porta. Ela nos recebeu de braços abertos e conversamos por algumas horas. Ficamos surpresos de como ela foi aberta e calorosa, especialmente após a morte violenta do seu marido.


Conversamos sobre religião, a Santeria, a morte, o filme que estamos fazendo sobre Arely Vazquez – a pioneira do culto da Santa em Muerte em Nova York, e que inclusive é uma amiga próxima dela -, sobre a pesquisa de Andrew Chesnut.  Ela comentou também sobre não ter planos de estar no dia seguinte quando muitas pessoas chegariam até a sua porta para a celebração.

As pessoas então começaram a chegar, e eu e Marco Antonio começamos a fotografar. Tinha comida sendo distribuída, comprimentos entre as pessoas e a maioria dos devotos gostava de posar para as fotos com as imagens da Santa Muerte que carregavam. Nosso guia nos lembrava a toda hora de tomar cuidado pois era um lugar perigoso e que deveríamos sair em breve, por precaução.

Mas nos sentimos bem e bem-vindos pela Enriqueta, então decidimos ficar e acompanhar os outros devotos que não paravam de chegar. Algumas horas depois começou a ficar muito cheio ao redor do altar e a Enriqueta saiu para acelerar as pessoas que ali ficavam, pois começava a se formar uma fila enorme fora da sua casa.


Ela, então, nos tomou pelo braço e nos levou para dentro da sua casa, ao seu altar pessoal e nos mostrou enquanto conversávamos. Ela nos disse que podíamos tirar o quanto de fotos desejávamos, mas com a condição de que elas fossem só nossas e que nunca as mostrássemos para ninguém – nunca! Ficamos tocados pelas coisas que ela nos disse nesse momento. 

Percebemos, assim, que existe algo muito profundo que acontece nesse lugar, no meio de um bairro tão perigoso, por causa dela e dos devotos que ali se aproximam. Partimos de Tepito nos sentindo agraciados e inspirados para terminar o filme.
Texto por Dr. Andrew Chesnut e Thiago Zanato, com tradução por Thiago Zanato e fotos por Marco Antonio Ferreira e Thiago Zanato.

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